Costumo dizer que saí do curso de filosofia com algo a mais que um diploma. Saí de lá uma pessoa diferente; diria também que lá aprendi "a perguntar melhor". Foi nas aulas de fenomenologia heideggeriana que aprendi hermenêutica, a arte da interpretação. Graças à hermenêutica aprendi que não há fatos, mas interpretações.

São as interpretações que nos ensinam a ler e a compreender o mundo. À maneira das lentes, as versões te ensinam a enxergar e, consequentemente, sua visão de mundo está condicionada às lentes. Cabe a você, conforme as condições, continuar preso às lentes que adquiriu,  limpá-las, ou mesmo trocá-las. Com a filosofia, aprendi esse exercício.

Durante muito tempo, me permiti ver o Tio Enemias, segundo os óculos dos outros. Especialmente, segundo os óculos dados a mim por nossos familiares. Eu e minha imaturidade, desconsiderava, por exemplo, os óculos do falecido senhor Anastácio Cunha, um grande homem. Este senhor, quase todas as tardes, se deslocava de sua casa para ter um dedo de prosa com Tio Enemias. Certamente, algo de especial o fazia dar essa viagem e, acho, não era por causa das tocadas de violão (rsrs). Seu Anastácio gostava mesmo era de uma boa história. Meu avô materno, Gerardo Joaquim, falecido há pouco mais de um ano, era um homem de grande valor e, apesar de sua sisudez, testemunhei muitos sorrisos dele na companhia do Tio Enemias. Isso para citar apenas dois dos mais nobres amigos dele. Tio Enemias era um bom contador de histórias e, principalmente, um bom ouvinte. Ele sabia exatamente onde encontrá-las e escutá-las.

Felizmente, tive a chance de conhecer o Tio Enemias por ele mesmo (par lui-même). Ele passou uma longa temporada em Brasília-DF. Quando voltou, tive o prazer de dialogar com ele muitas vezes; de conhecê-lo de verdade; de conhecer a sua versão de sua história; de me orgulhar por parecer com ele na aparência e nos gostos. Ele era um artista e um homem eclético, conhecia um pouco de muitas áreas. Seu ecletismo me tornou o homem que sou hoje. Um dia, com aquele seu característico sorriso de canto de boca ele mesmo falou: "você parece muito comigo". Eu sorri. Fiquei muito feliz com a constatação. Gosto do homem que me tornei.

Suas tardes tocando violão na calçada me levou a cativar o instrumento e a música. Seu prazer pela pescaria me levou a gostar da pesca. Ele tinha prazer em conhecer e se orgulhava do que sabia. Ele não tinha bens materiais vultosos, mas tinha o melhor da vida: amigos, saber, prazer nos seus afazeres. Era um homem feliz à sua maneira e foi muito incompreendido. Eu sei exatamente o que é isso.

O destino cuidou em distanciar nossos caminhos, mas sempre que eu o encontrava em qualquer que fosse o lugar era sempre um prazer tomar-lhe a bênção (apesar de meu ateísmo), perguntar como estava sua vida, perguntar se ele estava bem. Num dos últimos encontros que tivemos, ouvimos o vinil de Elvis Presley numa vitrola que adquiri na internet. Doutra vez, falei com ele sobre o lindo jardim que plantou à beira de sua calçada. Eu estava na companhia de minha esposa e do Martim, meu primeiro filho. Gentilmente, me ofereceu as sementes de zínia, as flores que embelezavam a frente de sua casa.

Tio Enemias morreu precocemente, aos 62 anos, na madrugada de 3 de março de 2022, sete dias depois do nascimento de Joaquim, meu segundo filho.



Recebi com tristeza a notícia de seu óbito. Mas estou confortado por ter conhecido o melhor dele antes de suas exéquias. De sua família, ele foi a melhor pessoa com quem convivi. Tio Enemias morreu, mas vive em mim e viverá em tudo o que eu ensinar aos meus filhos.

 

Descanse em paz!

Com amor, de seu sobrinho,

Wagner.